Querem saber? Deus: Afinal, cristãos, como vocês saem dessa? Esse post talvez se encaixasse na nossa série de " Hereges que amamos ", mas achamos por bem apresentá-lo separadamente. E por duas razões: Uma que a autora do post é o que os religiosos fanáticos chamarariam de "ateia que não tem coragem de sair do armário", mas que ela mesma se define como cristã progressista. E outra que ela é uma cristã de ideias muito arejadas e não tão famosa, ainda, para figurar naquela categoria de personagens. Ela? Mas quem é ela? Jo Holden é uma australiana que foi criada na Australia Uniting Church , é uma professora de matemática, que compartilha suas ideias sobre qualquer coisa envolvendo religião, que tem uma perspectiva racional e crítica, e representa a "geração Y". Assim ela se apresenta em seu site. ...
Querem saber?
Hoje, com esse post, se inicia a série "Hereges que amamos", que terá como objetivo apresentar personagens e vozes extremamente polêmicas associadas ao cristianismo e à cultura cristã, figuras que realmente chacoalham os fundamentos da fé. Pelo menos aquele tipo de fé, cujos fiéis se acham os inquestionáveis "donos da verdade".
Sabe aqueles indivíduos que, depois que você os ouve ou lê, você não consegue ser mais o mesmo?
Pois é.
É um deles que trouxemos para inaugurar a nossa série.
Como primeira personalidade da série "Hereges que amamos", trouxemos o bispo aposentado da Igreja Episcopal (assim são chamados os Anglicanos nos EUA), John Shelby Spong.
Essa simpática figura é velha conhecida nos círculos cristãos dos países de língua inglesa. Principalmente em sua terra natal, os EUA!

Spong, que já foi chamado o "pesadelo dos anglicanos" (da ala conservadora, claro!), é da Carolina do Norte, no sul do país, um estado pertencente ao famoso "Bible Belt" (ou "Cinturão da Bíblia", área vermelha do mapa acima), região onde se concentra o maior número de religiosos fundamentalistas dos EUA. Inclui, além da Carolina do Norte, a do Sul, o Texas, Alabama, Lousiana, Flórida, etc. Em certos setores do "Bible Belt" até Jesus em pessoa seria chamado de ateu.
John Shelby Spong foi bispo da Diocese da Igreja Episcopal de Newark, EUA, por 24 anos, até se aposentar em 2001.
Ele é admirado e aclamado por tornar acessível a todas as pessoas leigas o conhecimento teológico crítico. Spong é um representante de uma fé inclusiva, assim considerado por gente de dentro e de fora da Igreja.
A missão que Spong se deu foi a de trazer as pessoas a uma adequada abordagem desse que é considerado o livro sagrado da tradição judaico-cristã, a Bíblia. Depois de passar uma vida estudando criticamente a Bíblia, Spong explica:
"Eu assumi essa tarefa interpretativa, não como um inimigo do Cristianismo. Eu nem mesmo sou um ex-cristão desiludido, como muitos dos meus amigos acadêmicos se identificam a eles mesmos. Eu sou um crente que conhece e ama a Bíblia profundamente. Mas, eu também reconheço que partes dela foram muito usadas para alimentar preconceitos e mascarar a violência."
Em uma de suas palestras, que além de bastante informativas do ponto de vista do estudo bíblico, são bastante irreverentes, ele falando sobre um dos seus livros (veja aqui), nos conta sobre a sua infância em ambiente bíblico fundamentalista de intolerância e preconceito anti-semita.
"Quando eu era criança e crescia indo à escola dominical, em Charlotte, na Carolina do Norte, eu nunca conheci um bom judeu. Eles eram sempre descritos como pessoas más, pecadoras e trevosas. Judeu era Judas Iscariotes, os saduceus e fariseus. E ninguém me disse que Jesus era judeu.
Quando eu via as ilustrações de Jesus, ele não se pareceia com um judeu. Eu pensava que ele fosse sueco!
Engraçado ele se mostra mais ainda quando vai falar do "deus tribal" que a maioria dos cristãos defendem, quando pregam a sua fé por aí. Continue lendo que logo abaixo falamos disso!
Devido à sua irreverência e progressismo extremo - e é por isso que ele e outros como ele são chamados de "liberais", um termo nada elogioso no meio cristão! - Spong já foi inúmeras vezes ameaçado de morte.
"E vocês acham que as ameaças vieram de ateus, de agnósticos? Não, vieram de cristãos, leitores da Bíblia" - esclarece ele em seu tom irônico tradicional.
O nosso herege amado já chegou a dar mais de 200 palestras por ano, para plateias de pé, mundo afora.
O bispo está "combatendo o bom combate" há muito tempo. Suas publicações polêmicas datam do início dos anos 70. Mas ele se torna uma personalidade evidente ali pelos anos 80.
Autor de muitos livros, é uma pena que em língua portuguesa só tenhamos Um novo cristianismo para um novo mundo.
Em 1989, Spong debateu ao vivo pela TV, com um famoso erudito e pastor fundamentalista da época, o Dr. Walter Martin, diante de uma plateia predominantemente crente, e tudo era mediado por um apresentador muito tendencioso também.
O assunto principal do debate era a ética sexual, mas outros temas são levantados (como a divindade de Jesus) para que então se ligitime se a Bíblia pode dar pitaco sobre a questão.
Enquanto o pastor defendia uma interpretação literal e conservadora sobre os temas, Spong, baseado nos seus estudos histórico-críticos sobre a Bíblia, adotava uma leitura mais simbólica e humana dos mesmos temas (a divindade de Jesus, a data e intenção dos evangelhos, etc).
Uma curiosidade. O Dr. Martin ficou muito irritado durante todo o debate, como é de se esperar de um fundamentalista, e isso se nota facilmente, ainda que por meio da péssimas imagens que temos do evento (ver acima). No entanto, tenha isso colaborado ou talvez também por outros problemas de saúde anteriores, o Dr. Martin veio a falecer dois dias após o debate (ocorrido no dia 24 de junho).
Imagino, qual teria sido a interpretação dos fundamentalistas mais fanáticos se tivesse sido o contrário...
Em 2004, Spong conta, ele esteve num debate com o presidente do Seminário Batista do Sul (um grande centro de formação fundamentalista do estado do Kentucky, EUA), Albert Mohler.

Antes de começar o debate, continua Spong, o pastor e erudito evangélico mandou:
"Eu acredito que a Bíblia é a Palavra, sem erro, de Deus", de forma intimidatória.
Ao que Spong prontamente reagiu:
"Você alguma vez já a leu?"
A popularidade de John Spong é imensa. Só é ver a sessão de comentários dos seus vídeos no Youtube. Embora aqui e ali haja os que o condenem ao "lago de fogo e enxofre" onde nadam os seus preconceitos fanáticos, o que não faltam são elogios vindos exatamente de quem não se espera que parem para ouvir um religioso.
Nesse vídeo, se vê comentários do tipo:
"Eu sou ateu, mas adoro esse cara!"
"Precisamos de mais cristãos como o sr. Spong, cujas palestras assumem a uma abordagem prática e moderna e forçam você a dar um passo atrás e PENSAR...Bem diferente das besteiras sem sentido dos pregadores. Eu não sou cristão, mas consigo me identificar com o tipo de pensamento e explicações dadas pelo sr. Spong""Tenho de falar... Sou um ateu e mesmo assim eu gosto desse cara. Finalmente um homem de Deus que fala de um ponto de vista realista. Se as igrejas seguissem o seu exemplo, haveria bem menos conflitos entre crentes e descrentes."
Como Spong aborda a Bíblia?
Numa de suas palestras sobre como interpretar o evangelho de João e os seus personagens, que ele entende - afinal, como toda a interpretação crítica da Bíblia - como sendo simbólico, Spong pondera e pergunta (no vídeo abaixo, em inglês, a partir do minuto 53:50):
Você não lê o quarto evangelho (de João) literalmente para que ele faça sentido. O evangelho de João não deve ser entendido como uma biografia. Não deve ser entendido como história. Ele não tinha uma fita cassete para registrar o que Jesus disse. Ele criou todas aquelas falas e pôs na boca de Jesus.
Vocês conseguem imaginar Jesus perambulando pela Galiléia e mesmo por Jerusalém, e dizendo:
'Ei, à propósito, eu sou o Pão da Vida, e se vocês não comerem a minha carne e não beberem o meu sangue, a vida não estará em vocês!'
Alguém que entrasse nessa sala e saísse com essa, você não iria prendê-lo com uma rede de pegar borboleta e enviá-lo a um hospício?"
O nosso amigo levanta sérias críticas a interpretação tradicional da Bíblia, que em muitos textos apresenta um "deus tribal" que por "escolher um povo", sempre leva os seus seguidores a rejeitar os outros povos e vê-los como inimigos.
Muito do ódio dos cristãos por outros povos, se deve à mentalidade tribal presente em muitos textos da Bíblia.
Um exemplo que ele usa são as "pragas do Egito", cuja análise, tirada de uma de suas palestras, traduzimos a seguir.
***(Ver o vídeo em inglês, a partir de 18:40)***
Algumas vezes o retrato de Deus descrito na Bíblia é o de uma divindade tribal sedenta por sangue.
Veja o relato do êxodo. Está muito claro que Deus odeia os egípcios. Ele manda praga e mais praga e mais praga sobre eles. E no meio disso, até o Faraó acha que já deu e vai até Moisés e...
"Chega, Moisés. Peça ao seu Deus para parar e eu deixarei vocês irem.
Então Moisés se prepara para o êxodo. E a Bíblia diz que Deus endureceu o coração do Faraó, para que Deus pudesse atacá-lo de novo! Que vingança grandiosa!
E vocês sabem qual foi a praga final? Deus iria mandar o "anjo da morte" sobre a terra do Egito. Para matar...deixe-em usar uma palavra mais emocional, para assassinar cada primogênito masculino de toda e cada família egípcia.
Não importava se fossem eles bons ou maus. Eles tinham de partir!
A conversa então se torna mais fascinante quando Moisés fala para Deus,
"Pera aí, Deus, em algumas dessas casas há judeus nelas! Como você vai impedir que esse 'anjo da morte' mate judeus por engano?"
E Deus diz:
"Ah, eu já tinha pensada nisso, Moisés!
Vou dizer o que vou fazer...vou pedir que você instrua os judeus a juntarem famílias em grupos maiores, para que nenhum judeu fique de fora.
E eu quero que você sacrifique o cordeiro pascal, e quero que passem o sangue do cordeiro nos portais das casas judaicas. O que dá para entender é que, embora Deus saiba, o "anjo da morte" não é inteligente o suficiente para diferenciar os lares judaicos dos lares egípcios, e por isso eles têm de ter essa placa sinalizadora do lado de fora. E assim que ele ver o sinal, poderá "passar sobre" as casas e só matará os egípcios. Isso é uma religão tribal!"
A ingenuidade numa "história" dessas só pode ser comparada com o absurdo exclusivista e assassino do relato. E é para isso que Spong chama a atenção como a razão principal pela qual as pessoas, baseadas em relatos sangrentos comos esses, se odeiam tanto.
Outros exemplos que ele dá são o favor de Deus parando o sol (!) para que Josué tenha mais tempo de matar os amorreus (Js 10) e o envio de Saul pelo profeta Samuel para praticar genocídio contra os amalequitas (1Sm 15)!
John Shelby Spong propõe sempre uma outra leitura, também possível, da Bíblia.
Ele destaca que o Deus da Bíblia parece "crescer ao longo das eras".
"Não exatamente Deus, mas a percepção humana do que Deus tem a dizer e o seu significado, é que se transforma com o passar do tempo", nos esclarece Spong.
Apesar de tantos textos terríveis e intolerantes, outras partes da Bíblia, parecem se expandir para uma visão menos tribal e mais universal de Deus.
Entre outros textos, ele lembra da pregação dos profetas:
Malaquias, no 4º século a. C., que diz que o nome de Deus será grande entre gentios, além do mundo judeu.
Amós, e o amor de Deus não é nada mais do que a justiça em ação no mundo. (Am 5).
Oseias, no séc. 8 a.C., fala de um Deus que ama as pessoas não importa quem sejam e o que façam.
Oseias entende isso a partir da própria experiência com a sua esposa que se prostitui, mas que ele não deixa de amá-la mesmo assim. Igual a relação de Deus com o seu povo.
Falando do Novo Testamento, Spong entre outros exemplos do evangelho de Mateus e do livro de Atos, usa como exemplo a epístola de João:
Em João, quem conhece Deus conhece o amor e vice-versa. E você não pode dizer que conhece a Deus se você não ama. Por que Deus é amor. É uma ideia bem diferente daquela de matar todos os inimigos, do deus tribal.
Os cristãos progressistas são conhecidos por isso: pôr o amor acima de tudo na hora de ler e interpretar o texto bíblico. O que não passar pelo critério do amor, não deve ser levado a sério para eles. Independente dos interesses nacionais, religiosos ou sociais.
A teologia revisada de Spong
- O teísmo, como forma de definir Deus, está morto. Então, a maioria dos debates teológicos sobre Deus, hoje não tem sentido. Um novo modo de falar de Deus deve ser encontrado.
- Como Deus não pode mais ser concebido em termos teísticos, torna-se sem sentido procurar entender Jesus como a encarnação da divindade teísta. Então a cristologia da tradição está falida.
- A história bíblica da criação perfeita e acabada da qual os seres humanos caíram no pecado é uma mitologia pré-darwinista e é um absurdo pós-darwinista.
- O nascimento virginal, entendido como biologia literal, torna a divindade de Cristo, como tradicionalmente entendida, impossível.
- As histórias de milagres do Novo Testamento não podem mais ser interpretadas em um mundo pós-newtoniano como eventos sobrenaturais realizados por uma divindade encarnada.
- A visão da cruz como sacrifício pelos pecados do mundo é uma idéia bárbara baseada em conceitos primitivos de Deus e deve ser descartada.
- A ressurreição é uma ação de Deus. Jesus foi ressuscitado para Deus. Portanto, não pode ser uma ressuscitação física ocorrendo dentro da história humana.
- A história da Ascensão (subida de Jesus aos céus) pressupõe um universo de três camadas (céu, terra, infernos) e, portanto, não pode ser traduzida nos conceitos de uma era espacial pós-copernicana.
- Não há norma externa, objetiva e revelada, escrita nas escrituras ou em tábuas de pedra que governem nosso comportamento ético de todos os tempos.
- A oração não pode ser um pedido feito a uma divindade teísta para atuar na história humana de uma maneira particular.
- A esperança de vida após a morte deve ser separada para sempre da mentalidade de controle de comportamento de recompensa e punição. A Igreja deve abandonar, portanto, sua confiança na culpa como um motivador do comportamento.
- Todos os seres humanos têm a imagem de Deus e devem ser respeitados pelo que cada pessoa é. Portanto, nenhuma descrição externa do ser humano, seja baseada em raça, etnia, gênero ou orientação sexual, pode ser usada adequadamente como base para rejeição ou discriminação.
Como vocês podem ver, esse é aquele tipo de herege que a gente respeita!
Para encerrar, um trecho da conclusão de sua palestra, do último vídeo:
A religião tribal identifica inimigos. Mas a tendência profunda bíblica da história bíblica, nos leva a um lugar que nos diz que devemos amar os nossos inimigos... O único caminho para nos tornarmos humanos plenamente é amar os inimigos. Não é fácil.
Você não pode cultuar de verdade Deus até amar os seus inimigos.
E aí, estão dispostos?
Até mais!
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